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| A COP 30 representa um teste para a convergência entre discurso climático e realidade operacional. Foto: Viagens e Caminhos/ Shutterstock |
A COP 30, marcada para acontecer em Belém (PA) entre 10 e 21 de novembro de 2025, chegou já envolta em controvérsias que colocam sob escrutínio a logística, a cultura local e a equidade de participação no evento. Enquanto se prepara para ser um marco na agenda climática — a “COP da Amazônia” —, o encontro enfrenta críticas que variam desde preços astronômicos de hospedagem até decisões que pareciam silenciar a voz da gastronomia regional. Essas questões revelam tensões profundas entre imagem, infraestrutura e justiça ambiental.
Preços de hospedagem elevam tensão internacional
Uma das
polêmicas mais expressivas da COP 30 envolve os valores de hospedagem em Belém,
que escalaram de forma alarmante ao longo das semanas de preparação. Há
anúncios de imóveis para o período do evento com valores acima de R$ 1 milhão
para 11 dias de estadia, ou diárias que ultrapassavam R$ 60 mil por pessoa —
valores que, segundo diversas plataformas de notícia, superaram de dez a quinze
vezes as tarifas habituais da cidade. Instituições internacionais e delegações
de países com menor orçamento manifestaram preocupação, alegando que tais
custos ameaçam a participação plena de países em desenvolvimento no processo de
negociação.
Em
resposta à repercussão, autoridades brasileiras afirmaram que o cenário de
preços abusivos era exceção e anunciaram que haveria quartos com tarifas
controladas — entre US$ 100 e US$ 600 por pessoa — planejados para delegações
oficiais. Ainda assim, o problema de infraestrutura — com número limitado de
leitos, alta demanda e especulação imobiliária — seguia sendo apontado como
risco à legitimidade do evento e à amplitude de sua participação global.
A culinária paraense: tradição contestada e depois
reconduzida
Outra
disputa simbólica envolveu a gastronomia regional de Belém. Inicialmente, um
edital da Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) para fornecedores da
conferência excluía pratos tradicionais da culinária paraense — como açaí,
tucupi e maniçoba — sob alegações de risco sanitário. A decisão gerou protestos
de chefs, produtores locais, entidades de turismo e movimentos culturais, que
interpretaram a medida como desrespeito à identidade e à economia da região
amazônica.
Após
repercussão negativa, a organização reviu o edital e confirmou que os alimentos
típicos voltariam ao cardápio oficial da COP 30. O episódio evidenciou não
somente uma falha de comunicação, mas também a tensão entre padrões de evento
global e respeitar a cultura local. A provação serviu como alerta para como
projetos de escala internacional podem se desconectar de suas bases regionais e
ressaltou a importância da participação ativa da comunidade anfitriã neste tipo
de encontro.
Desafios estruturais, questões de justiça e imagem
As
controvérsias da COP 30 não se limitam aos temas acima — há uma sobreposição de
desafios que combinam justiça climática, logística e diplomacia. A escolha de
Belém como sede simboliza a importância da Amazônia na crise climática, mas
traz consigo a necessidade de garantir que o evento não se torne inacessível
para os atores mais vulneráveis. Quando hospedagens ficam fora do alcance, a
participação de países menores, organizações da sociedade civil e comunidades
tradicionais, ficam comprometidas.
Além
disso, o risco de icônico encontro sediado em uma cidade com infraestrutura
ainda em desenvolvimento amplia o debate sobre como sediar eventos globais de
clima. A falta de leitos suficientes, a dependência de soluções alternativas
como cruzeiros-hotel ou imóveis alugados por plataformas digitais e o impacto
na população local — como especulação de preços e deslocamento de moradores —
são elementos que merecem atenção.
Imagem, legado e o que está em jogo
A COP 30
carrega consigo expectativas de legado duradouro: a valorização da Amazônia, o
fortalecimento da economia verde no Norte do Brasil e o protagonismo no debate
sobre mudanças climáticas. No entanto, para que esse legado se concretize, é
necessário que as controvérsias sejam enfrentadas com transparência e justiça.
O sucesso do evento não será somente medido pelas decisões políticas ou pela
tecnologia demonstrada, mas também pela participação inclusiva, pelo respeito
cultural e pela equidade das condições de participação.
Se a conferência for vista como excludente ou marcada por
práticas que dificultam a entrada de delegações menores ou marginalizam a
cultura local, seu impacto simbólico pode ser fragilizado. Por outro lado,
lidar com as polêmicas de maneira aberta e colaborativa pode fortalecer a
credibilidade do Brasil como anfitrião e criar um legado que vai além da
assembleia em si: mobilização social, fortalecimento regional e aprendizado
global.
Em última análise, a COP 30 representa um teste para a convergência entre
discurso climático e realidade operacional. Se as polêmicas iniciais forem
superadas com compromisso e inclusão, a conferência poderá se tornar um marco
positivo para o Brasil e para o mundo. Caso contrário, o risco é que leve consigo
a crítica de que, mesmo tratando de clima, as vozes menos privilegiadas
permaneceram fora do debate.
Fontes
- G1
— Hospedagem na COP 30:
entenda notificação para plataformas excluírem anúncios com preços
abusivos
- https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2025/08/13/hospedagem-na-cop-30-entenda-notificacao-para-plataformas-excluirem-anuncios-com-precos-abusivos.ghtml
- Agência
Brasil — Após polêmica, COP 30
vai permitir pratos paraenses como açaí e tucupi
- https://agenciabrasil.ebc.com.br/meio-ambiente/noticia/2025-08/apos-polemica-cop-vai-permitir-pratos-paraenses-como-acai-e-tucupi
- Exame
— Vai ter açaí na COP 30?
Entenda a polêmica sobre os pratos amazônicos no evento.
- https://exame.com/brasil/vai-ter-acai-na-cop30-entenda-a-polemica-sobre-os-pratos-amazonicos-no-evento/
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