A sensação de “agulhadas”, formigamento ou perda completa de sensibilidade nas extremidades superiores é uma queixa clínica extremamente comum, mas que carrega uma complexidade diagnóstica significativa. Cientificamente chamada de parestesia, a dormência nas mãos não é uma doença, mas um sintoma de que a comunicação entre os nervos periféricos e o sistema nervoso central está sofrendo alguma interferência.
Seja por uma compressão mecânica temporária ou por patologias sistêmicas
graves, entender a origem desse sintoma é vital para evitar danos irreversíveis
aos nervos. Neste artigo, exploraremos as causas que variam desde hábitos
posturais até deficiências vitamínicas e condições crônicas.
I. A Fisiologia da Dormência: O que acontece com os nervos?
Para que você sinta o toque, o calor ou mova os dedos, o cérebro envia e
recebe sinais por uma vasta rede de “cabos elétricos” chamados nervos. Quando
esses nervos são comprimidos, irritados, inflamados ou danificados, a
transmissão desses impulsos elétricos é bloqueada ou distorcida.
Imagine uma mangueira de jardim: se você pisa nela, o fluxo de água é
interrompido. Com os nervos, o processo é semelhante. Quando a pressão é
liberada rapidamente (como ao mudar de posição), sentimos o “formigamento”
conforme os sinais voltam a fluir. No entanto, se essa pressão for crônica, o
nervo pode começar a sofrer um processo de degeneração.
II. Causas Comuns e Fatores Mecânicos
1. Má postura e Compressão Temporária
A causa mais benigna, porém frequente, é a compressão externa dos nervos
durante o sono ou atividades sedentárias. Dormir sobre o braço ou manter os
punhos dobrados por muito tempo bloqueia a circulação e pressiona os nervos
ulnar ou mediano. Geralmente, a sensação desaparece em poucos minutos após o
despertar e a movimentação do membro.
2. Síndrome do Túnel do Carpo (STC)
Esta é a
causa patológica mais comum de dormência nas mãos, especialmente na era
digital.
- O que é: Uma inflamação ou
estreitamento do canal no punho por onde passa o nervo mediano.
- Sintomas: Dormência e formigamento
que afetam especificamente o polegar, o indicador, o dedo médio e
metade do anelar.
- Fatores de Risco: Movimentos repetitivos
(digitação, uso de ferramentas vibratórias), gravidez (devido à retenção
de líquidos) e artrite.
3. Síndrome do Túnel Cubital
Diferente
da STC, esta condição envolve a compressão do nervo ulnar na região do
cotovelo. Se você sente dormência principalmente no dedo mindinho e na outra
metade do anelar, a causa provavelmente está no cotovelo e não no punho.
III. Condições Crônicas e Doenças Sistêmicas
Quando a
dormência persiste independentemente da postura, ela pode ser um reflexo de
problemas que afetam o metabolismo ou o sistema imunológico.
1. Neuropatia Diabética
O excesso
de glicose no sangue por períodos prolongados é tóxico para as fibras nervosas.
A diabetes pode causar danos aos pequenos vasos que alimentam os nervos,
resultando em dormência que geralmente começa nos pés, mas que pode afetar as
mãos de forma simétrica.
2. Deficiências Vitamínicas
Os nervos
dependem de nutrientes específicos para manter sua bainha de mielina (a capa
protetora). A falta de vitamina B12 é uma das principais causas de
neuropatia periférica. Deficiências de B1 (tiamina), B6 e vitamina E também
estão diretamente ligadas a distúrbios de sensibilidade.
3. Problemas na Coluna Cervical
Muitas
vezes, o problema não está na mão, mas no “painel de controle” no pescoço. Uma hérnia
de disco cervical ou o bico de papagaio (osteofitose) podem comprimir a
raiz nervosa que sai da coluna e desce pelo braço até a mão. É o que chamamos
de dor ou dormência irradiada.
4. Doenças autoimunes e Infecciosas
Condições
como esclerose múltipla, lúpus e artrite reumatoide podem fazer com que o
sistema imune ataque os próprios nervos. Além disso, infecções como a
hanseníase (muito relevante no Brasil) e o HIV atacam diretamente a integridade
nervosa.
IV. Medicamentos e Toxinas
Certos
tratamentos químicos podem ter a parestesia como efeito colateral.
- Topiramato: Comumente usado para
enxaqueca e convulsões, frequentemente causa formigamento nas
extremidades.
- Quimioterapia: Muitos agentes
quimioterápicos são neurotóxicos.
- Antibióticos e Metais
Pesados: O
uso prolongado de certas substâncias ou a exposição ao chumbo e mercúrio
podem danificar os nervos periféricos.
V. Quando a Dormência é uma Emergência?
Embora
raramente a dormência isolada seja um sinal de perigo imediato, ela deve ser
tratada como emergência se vier acompanhada de:
- Sinais de AVC: fraqueza súbita em um lado
do corpo, confusão mental, dificuldade na fala ou visão turva.
- Trauma Recente: Se a dormência começou logo
após uma queda ou impacto no pescoço/ombro (lesão do plexo braquial).
- Perda de Coordenação: Dificuldade em segurar
objetos simples ou abotoar uma camisa.
VI. Diagnóstico e Tratamento
Para
descobrir a causa exata, médicos (geralmente ortopedistas ou neurologistas)
utilizam:
- Eletroneuromiografia (ENMG): um exame que mede a
velocidade de condução elétrica dos nervos.
- Ressonância Magnética: Para verificar compressões
na coluna cervical.
- Exames de Sangue: Para avaliar níveis de
glicose, tireoide e vitaminas do complexo B.
O
tratamento varia conforme a causa:
- Fisioterapia e Terapia
Ocupacional:
Para corrigir postura e fortalecer estruturas.
- Uso de Órteses: Tala de punho para usar à
noite em casos de Túnel do Carpo.
- Suplementação: Reposição de vitaminas
quando detectada a deficiência.
- Cirurgia: Reservada para casos em que
a compressão nervosa é severa e há risco de perda permanente de função.
Para
entender a dormência nas mãos, os especialistas recomendados e os estudos de
referência são:
1.
Especialistas Indicados
- Neurologista: Especialista principal
para diagnosticar a origem do formigamento, seja ela periférica (nervos
das mãos) ou central (cérebro e medula). Realiza o exame de eletroneuromiografia,
essencial para medir a condução nervosa.
- Ortopedista (Especialista em
Mão): Focado
em causas mecânicas e estruturais, como fraturas ou compressões que
necessitem de intervenção cirúrgica ou órteses.
- Neurocirurgião: atua em casos graves de
compressão nervosa na coluna cervical ou no punho que exigem descompressão
cirúrgica.
- Endocrinologista: Importante quando a
dormência é causada por diabetes (neuropatia diabética)
ou distúrbios da tireoide.
2.
Estudos e Diretrizes de Referência (2024–2025)
- Diretrizes da AAOS (2025): A American
Academy of Orthopaedic Surgeons publicou atualizações em setembro
de 2025 recomendando o uso da ferramenta CTS-6 para
diagnóstico clínico da Síndrome do Túnel do Carpo, enfatizando não haver
associação direta entre o uso intenso de teclado e a doença, mas sim com
fatores como vibração e força manual.
- Consenso de Diagnóstico
(Neurology Journal): Estudos endossados pela American
Academy of Neurology (AAN) confirmam que os testes
eletrodiagnósticos possuem mais de 85% de sensibilidade e 95%
de especificidade para confirmar lesões nervosas nas mãos.
- Estudo da SBOT (2025): A Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia destacou recentemente estudos que relacionam
a persistência da dor e dormência na Síndrome do Túnel do Carpo a sintomas
depressivos, sugerindo uma abordagem multidisciplinar no tratamento.
- Prevalência e Impacto: A literatura atual
aponta que a compressão nervosa atinge cerca de 1 em cada 20
adultos (5%), sendo a neuropatia compressiva mais comum no
mundo.
3. Exames
e Testes Comprovados
- Teste de Phalen e Sinal de
Tinel: Manobras
clínicas realizadas em consultório para testar a compressão do nervo
mediano.
- Ressonância Magnética: Embora útil para
avaliar a coluna cervical, não é recomendada rotineiramente para diagnosticar o túnel do carpo, exceto em casos atípicos.
- Dosagem de Vitamina B12: Estudos reforçam que a deficiência desta vitamina afeta a mielina, sendo uma causa metabólica frequente de formigamento bilateral.
Conclusão
Sentir
dormência nas mãos é um sinal que o seu corpo envia para indicar que algo está
interrompendo o fluxo vital de informações nervosas. Se o sintoma for
esporádico e associado a posições desconfortáveis, ajustes ergonômicos podem
resolver. No entanto, se a dormência for persistente, acompanhada de dor ou
perda de força, a investigação médica é indispensável. Proteger seus nervos
hoje é garantir a mobilidade e a independência de amanhã.
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